De repente me sinto angustiada e como se chorar fosse a única forma possível de expurgar essa nuvem que se alojou em meu peito. Momentos como esse sempre me impressionam em como um incomodo na mente pode se tornar bem real e presente. Isso me lembra de um episódio há uns 7 ou 8 anos atrás - não muito antes tive um dos períodos mais longos e extenuantes de depressão que já enfrentei - quando minha madrinha comentou, rindo, que minha avó havia me imitado escovando os dentes e que parecia que eu o fazia com um martelo. A comédia cessou quando expliquei que, de fato, a escova de dentes pesava 1t naquela ocasião.
Sempre senti que sair da vigilância familiar seria a solução dos meus problemas mais intrínsecos. E foi mesmo [claro, aliado à terapia de 2h 2x por semana durante um ou dois anos ou mais, não sei]. Na minha primeira internação, eu soube, eu tive certeza de que precisava sair daquele ambiente controlador, opressor, cheio de dor. Falando assim parece que minha família é um polvo maligno à la de Julio Verner... Quer dizer, até tem potencial pra isso quando permitido, mas o curioso é que é de amor, um amor louco, possessivo, sufocante e moralista. O problema é que, morando sob o mesmo teto, mesmo quando a gente tenta não permitir, somos engolidos por essa areia movediça.
Casar e começar minha própria família atenuou muito as coisas, afinal agora meu marido carinhoso e inteligente cuida de mim e garante que eu não leve uma vida "perversa". // Devo confessar que me beneficio muito com isso, então, contanto que não me perturbem a paciência, pensem o que quiser - rs.
Aliás, era sobre isso que vim falar aqui: começar uma família.
Ontem, pela primeira vez, compartilhei com a minha avó e minha mãe que sonho em adotar uma criança de um país qualquer f•dido da África. Na verdade todo mundo lá sabe que Fabricio e eu pensamos muito em adoção, só não sabiam que era tão específico assim. É claro que não obtive apoio - e nunca nem esperei por isso -, mas meu ponto é adoção e/ou geração de um filho "próprio" e é sobre isso que quero falar agora.
Primeiro pensamos em nos planejar para ter uma penca [uns 3 ou 4] de filhos biológicos [até então adotar nunca nem tinha passado pela minha cabeça]. Isso deve ser síndrome do filho que, além de ser único [ambos], sempre ficou muito sozinho [eu]. Mas tá, tudo bem, até aí nada de mais além do desejo de me tornar uma "parideira".
Só que então decidimos ter um cachorro e decidimos adotar um*. Acontece que sinto um amor tão grande pela Lola que penso que, se adotar uma criança gerar um amor como esse [o que acredito ser maior, pois desenvolvemos uma relação infinitamente mais complexa com outros seres humanos], já vale a pena.
E foi assim que a ideia de adoção entrou em nossas vidas. Com o tempo resolvemos gerar um biológico e adotar outros. Acontece que agora me alegra mais a ideia de simplesmente adotar todos e acho [tenho certeza] que o Fabricio ficou bem chateado com isso.
O fato é que eu sempre quis não ser mãe. A coisa começou a mudar quando conheci meu marido e a ideia de construir uma família passou a fazer sentido pra mim. Com o tempo, passou a ser um objetivo que quero muito alcançar. Talvez por isso esteja sendo um pouco difícil entender a decepção dele quando conversamos ontem. Como falei pra ele, biológico ou não, não teríamos filho agora, então podemos decidir isso mais adiante, mas ainda assim ficou evidente sua decepção.
Com o problema de superpopulação no mundo, por que gerar um filho biológico? Eu não sou nenhuma Gisele Bündchen para querer passar meus genes adiante. Tão pouco sou um Stephen Hawking ou um Einstein. Geneticamente falando, não vejo motivos para querer propagar minhas características na Terra. Meu tesão em ser mãe está em educar, em passar meus valores, em participar ativamente do desenvolvimento de uma pessoa e tudo isso pode ser feito com uma criança gerada por outras pessoas. Reconheço que desse jeito pulamos uma fase importante da formação do bebê, não curtimos a gestação, não sinto nada mexer na minha barriga, etc e tal, mas o quanto vale essa experiência diante de uma vida inteira juntos e da consciência de que se está contribuindo positivamente para o mundo?
Também reconheço que temo muito a gravidez em si e que toda essa perspectiva de adoção vai ao encontro disso. Temo porque sei que minha relação com o meu corpo é extremamente complexa, mas, a princípio, estou disposta a passar por isso [eu acho] se for para realizar um sonho do Fabricio ou quem sabe o meu, caso volte a desejar muito isso também. Imagino que deva ser como quando pulei de bungee jump: da um medo do car•lho, você pensa em desistir, mas então toma coragem e se joga.
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* não que alguma vez tivesse passado pela nossa cabeça gerar um [rs], mas é que sempre gostamos muito de Bulldog Inglês, então havia a possibilidade de comprar. A batida do martelo foi quando soubemos a quantidade absurda de animais de rua mortos por puro e simples extermínio; quando veio à consciência o grande problema de superpopulação e de recursos que abrigos para animais enfrentam.
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