domingo, 21 de junho de 2015

"antes eu tinha potencial para ser artista. hoje me contento em ser designer."

Então ontem foi o dia pelo qual esperei por meses. Cheguei em casa elétrica, queria escrever, ou melhor, pre.ci.sa.va. Às quatro meu cérebro ainda fazia sinapses como um toddler, mas me forcei a dormir, pois eu realmente tenho um monte de coisas importantes para fazer. Ainda assim, levantei cedo.

É fato que o Kurt teve um papel crucial na minha formação e ontem vivi bem isso, não que fosse uma super novidade à luz do consciente... 22hs e alguma coisa e eu estava lá, sentada no cinema com o coração palpitando como o de uma adolescente tietética.

Sensacional. Produção incrível, audio e vídeo intimamente conectados, animações do carlh*. Foda, hipnótico, indescritível. Mas não, não se trata de uma nova perspectiva até então desconhecida dele, não há nenhuma novidade ou coisa que um fã apaixonado já não soubesse. Aliás, dizem, há até memórias bem fantasiosas - quem nunca? eu mesma tenho várias que por vezes cheguei a acreditar que fossem verdade e que ainda hoje tenho que resistir para não espalhá-las por aí. Tendo a acreditar que se trata de um fenômeno comum àqueles que desejavam experiências bastante diferentes da que tiveram.

O fato é que meus ídolos sempre foram pouco convencionais. Aos 11 ou 12 [talvez até um pouco antes], conheci Christiane* e - nossa -  como queria ser como ela e pirava naquelas fotos do meio do livro. Pouco depois, e não tenho a menor ideia de como**, descobri o Kurt e, diferentemente do que senti pela personagem anterior, nunca quis ser como ele, muito provavelmente porque já era; eu só o queria por perto mesmo.

Vale dizer, embora para mim seja um tanto quanto óbvio, que pouco importa quem de fato era o Kurt, mas sim a construção que fiz dele. Reconheço que naquela época acreditava que somente eu o compreendia de verdade, mas é claro que hoje, adulta, não sou nem um pouco ambiciosa nesse sentido e me é muito claro que, para mim, pouco importava quem ele realmente era, mas o que eu achava que ele fosse. Depois [na verdade há relativamente pouco tempo, já que só então passei a tematizar essas relações] percebi que eu não era a única a ter uma vida merda e sentir que era a única a compreendê-lo, mas que ele era o único que me compreendia em toda angústia e raiva de si e dos outros.

Há uma parte em que a Tracey Maranda fala que ele tinha medo que se sua dor passasse, ele não seria tão criativo, produtivo, etc. e tal. Bem, eu também vivi esse medo e é muito contundente. Senti isso quando estava num processo terapêutico [que realmente, pela primeira vez, estava mesmo fazendo diferença] e me foi receitado Anafranil®, minha "cura" ["controle" talvez seja mais apropriado] e "destruição". Não, eu não desejo nem de longe parar de tomar isso e temo muito, de verdade, que um dia tenha que ficar sem, parar por um tempo ou sei lá... Mas também sei que eu nunca mais vou produzir coisas tão bem e verdadeiras e íntimas e realmente boas tomando esse negócio. Primeiro porque, obviamente, o remédio sozinho não foi responsável pelo sucesso do meu tratamento e depois porque, consequentemente, eu já mudei e já interpretei as coisas de maneiras tão distintas que não há como voltar. Como disse ontem conversando com meu marido: 

antes eu tinha potencial para ser artista, hoje me contento em ser designer.

Não que um seja melhor do que o outro, é só que são absolutamente diferentes em essência. A grosso e estúpido modo, acredito que o artista produza, na maioria dos casos, "de dentro para fora"; e o designer, "de fora pra dentro".

Enfim... Só para concluir esse post que parece ter se perdido no caminho, essa semana estava no psiquiatra/terapeuta*** e tivemos o seguinte diálogo****: 
- seu primo teve aqui esses dias, ele tem vindo direitinho.
- ah, que bom! Com que freqüência ele vem?
- uma vez por mês... Aliás, você tem vindo de quanto em quanto tempo mesmo, hein?
- uma vez por bimestre.
- hmmmm...
Com uma cara que eu nem sei como descrever agora, mas meio que de surpresa. Então eu rapidamente emendei:
- pô, mas também estou com você há um tempão e, quando comecei - e por muito tempo foi assim -, vinha duas vezes por semana.
.
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Sem mais e até logo.

________

* Christiane F., de "Wir Kinder vom Bahnhof Zoo"

** Digo isso porque eu de fato não tenho a menor ideia, uma vez que absolutamente ninguém com quem tivesse contato ouvia muito rock e, quando sim, era sempre newmetal.

*** É, eu finalmente encontrei um profissional maravilhoso que faz muito bem as duas atividades. Podem falar o que for, mas, por experiência própria [aliás, muitas] eu não acredito num tratamento onde o mesmo profissional não exerça as duas funções.

**** Acho que muita gente me via como um "caso perdido" e, quem me conhece desde criança, viu a mudança que houve desde que passei a me consultar com esse médico, então várias dessas pessoas passaram a ir nele, mas frequentemente apenas como psiquiatra. Entre essas pessoas, está meu primo.

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