segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

São João Batista 447

- Eu tenho uma notícia ruim para te dar.
- O que houve?
- É sobre o Tuba. Não tem forma melhor de eu falar. Ele morreu.


E foi assim que eu fiquei sabendo da morte dele. Disseram que o enterro foi agora, gostaria de ter ido. Mal consigo respirar, parece que a notícia está caindo aos poucos. Acho que daqui a pouco terei consciência do que aconteceu, agora ainda estou surpresa. Mas nem tanto. Isto é, quando soube que não foi acidental, me pareceu absurdamente natural e esperado. Não sei.

Ano passado tive uma conversa com uma moça que conheci na Alemanha. A irmã do namorado dela havia se lançado pela janela no início do ano e eles tiveram que viajar imediatamente para o Brasil. Falamos sobre essa experiência.  // Há muitos anos era convicta de que, para se matar, era preciso, antes de tudo, coragem. Coragem que eu nunca tive e que por anos desejei ter. De certa forma, sempre admirei suicidas, sempre vi neles pessoas vitoriosas. A experiência da Ana, porém, mudou meu foco. Ela conhecia bem a irmã do namorado e disse: "foi desespero". // É a partir dessa perspectiva que penso no Tuba. Me causa angústia. Ao mesmo tempo eu sei que pouco poderia ser feito. É uma convivência constante com um sentimento de inadequação no mundo. A sensação de que não se cabe ou pertence a lugar algum. 

É estranho, não me sinto à vontade para falar disso. Em pensar que já foi algo sobre o qual conversei com muita naturalidade, não sinto que sou apta a explicar o que se passa, o que se sente. Por outro lado, ainda sinto angústia. Ainda tenho algo muito subjetivo, impossível de explicar, mas que faz com que compreenda gestos de tal magnitude.

Que haja descanso. 

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