Há dias, semanas na verdade, tenho tido vontade de vir aqui. Um dia foi porque não me sentia tão feliz daquele jeito desde antes de voltar da Alemanha, outro porque nunca estive tão triste desde sei lá quando e agora, bem, agora só estou cansada mesmo, mas resolvi aproveitar a oportunidade, afinal, não é sempre que posso me dedicar a isso aqui.
Daqui a cerca de uma semana e meia verei meu pai. Isso está me tirando o sono, consumindo meu cérebro, provocando uma ansiedade sem precedentes. É, a gente não se vê há um tempão, desde antes do meu casamento e de repente... bem, de repente eu sou avisada de uma audiência para daqui a duas semanas e certamente ele estará lá. // Sinceramente, acho que aqui não é lugar para essas coisas tão pessoais, mas tenho esperança de que, sei lá, vai que ele lê e entende um pouco a minha situação, minhas atitudes. Quer dizer, minha esperança não contempla tanto, é verdade. Para isso teria de expor aqui coisas pessoais demais... mas vai que ele lê...
O fato é que eu senti falta dele durante todo esse tempo e isso não é novidade para ninguém que convive comigo. O fato é que não houve uma semana inteirinha na qual não tenha pensado nele em algum momento e que tenho certeza que, da perspectiva dele, eu sou o exemplar perfeito de uma boa filha da p*. Eu sei disso porque jamais conversamos sobre esse problema específico e nunca tive oportunidade de expor as coisas da minha perspectiva. Eu sei que, para ele, eu sou uma carrasca ingrata. Eu sei também que ele pensa assim porque nunca se colocou no meu lugar, mas talvez não porque não quisesse, mas porque tal perspectiva nunca tenha sido sugerida.
Eu sei como é quando nossa mente alimenta ideias obsessivas e a gente só enxerga as coisas de um certo ângulo, até que alguém vem e nos muda de posição e então você passa a pensar as coisas de outra forma. Mas sei também que até alguém fazer isso, a gente pensa as coisas mais esdrúxulas e me corta o coração saber que, provavelmente, é dessa forma que ele me vê.
Meu marido tem dois amigos cujo pai sempre foi ausente e, um deles sempre cagou para o sujeito, enquanto o irmão sempre alimentou esperanças de ter um pai presente. Eu nunca consegui fazê-lo entender que esse caso está longe de poder ser comparado ao meu. Para ele, eu nutro esperanças demais por meu pai e deveria encarar a situação como o primeiro irmão faz. Acontece que, não, este não é o meu caso. Eu sei o pai que tive e é esse conjunto de recordações que me permite afirmar que, não, eu jamais tive um pai ausente, um pai pouco carinhoso ou que me desse pouco amor. Não faltou nada disso em minha vida e, durante muito tempo, muito tempo mesmo, acreditei que ele fosse a pessoa com a qual mais pudesse contar. Por muitas e muitas vezes ele foi mais amigo do que espera-se de um pai, só que tudo isso aconteceu bem antes de eu conhecer meu marido, então ele nunca viu vestígios disso em mim e portanto nunca entendeu. Mas foi assim. Foi assim, goste a minha mãe ou não.
De forma alguma estou afirmando que ele foi perfeito, tanto não foi que acabei ficando ao lado da minha mãe quando a merda toda estourou de vez uma semana antes do meu casamento oO [é, uma semana, isso mesmo] Mas goste ela ou não, ele não foi do jeito que ela pinta. Goste ela ou não, eu sinto falta dele e sim, lamento muito por saber que meu pai e eu jamais seremos "parceiros" de novo e que provavelmente minha relação com ele está fadada a se parecer com uma lixa áspera.
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