Sou frequentemente questionada sobre meus piercings. Não que tenha muitos, na verdade são poucos até, mas tenho a impressão de que mais de um na região da face é demais para as pessoas em geral, rs. Ontem foi no mercado do condomínio, que, por ser justamente onde é, frequento praticamente todos os dias, o que me possibilita manter uma relação amigável com várias pessoas que trabalham lá, afinal estas fazem parte do meu cotidiano.
O fato é que ontem, uma dessas pessoas que ajudam o cliente a ensacar as compras comentou comigo que a filha gostaria de colocar um, o que me lembrou da minha época de adolescente e, sinceramente, ainda não entendo muito bem o motivo que leva este tipo de desejo ser tão refletido assim, pois, ao contrário da tatuagem, o piercing é facilmente removido e não deixa marcas aparentes quando retirado. Além disso, ter um piercing implica na responsabilidade, mesmo que pouca, de um cuidado consigo. Pense na seguinte perspectiva: a pessoa fura e depois tem que cuidar para ter uma boa cicatrização, por exemplo.
Obviamente, este e outros adornos são incorporados como símbolos da vaidade do sujeito, por mais esquisito que isso possa parecer para muitos e mais "idiotamente" óbvio o mesmo seja para tantos outros.
Tenho pra mim que, no meu caso, a proibição do uso desse tipo de adereço validava-se no prazer que minha mãe tinha ao perceber que, para determinadas coisas, ela ainda "mandava em mim"- não pelo fato de eu precisar da autorização dos responsáveis para furar, mas porque ela me inspecionava com frequência, o que me impedia de tirar e colocar a jóia com a mesma regularidade por conta de problemas como infecção da área e coisas do tipo.
Será possível que este seja o centro da questão, só que de uma forma mais branda? Talvez autorizar ou não o filho a se encher de penduricalhos vire uma questão seriamente discutida nas famílias porque é uma hora em que os pais sentem que ainda têm algum "poder" sobre a prole.
Esse post me lembrou de dois livros, embora nenhum seja exatamente sobre isso.
O corpo como suporte da arte, da Beatriz Ferreira Pires. Ed. Senac.
Muito legal! Ela começa traçando a interpretação, representação e signficado do corpo através da história e aborda as diversas relações que envolvem elementos de intervensão corporal (piercing, tatuagem, implante e escarificação, para ser mais precisa).
A edição do corpo, da Nízia Villaça. Ed.Estação das Letras
Trabalha mais a relação corpo X sociedade.Também é muito interessante, mas lembro que tive que insistir na leitura porque o primeiro (ou os primeiros) capítulo foi um pouco chato, como se a coisa não andasse muito. Mas vale muito a pena! Ela colocou várias questões que nem imaginava existir ou sobre as quais nunca havia pensado de uma determinada maneira.
Até breve =)
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